Prefácio

 

Paulo e Walfrido me fizeram reviver a forte impressão que senti ao comtemplar pela primeira vez os desenhos rupestres feitos a milhares de anos nos paredões da Chapada Diamantina (BA). Em cenas recorrentes, a silhueta inequívoca de cervídeos aparecem desenhados em ocre, geralmente misturados a outros desenhos.  Mas o que me chamou a atenção foi a estranha distorção da perspectiva dos desenhos nas extremidades das patas. Era como se aqueles artistas primitivos quisessem deixar um testemunho de que reconheciam aquelas patas e por extensão, as pegadas daqueles animais. Ou será que era a lousa, onde caçadores experientes ensinavam a jovens aprendizes as artes da caça?

A vida do ser humano era diretamente ligada à natureza, naqueles tempos. Passados milhares de anos, nos distanciamo dos habitats naturais, edificamos cidades de concreto e até mesmos dentro dos muros das universidades fomos perdendo aquele saber tão essencial. À medida que a ciência avançava em tantos campos,  ficamos analfabetos na arte de ler as escritas que os animais nos deixam em praias de areia, nas margens argilosas dos rios e em tantas outras partes.

Paulo e Walfrido vêem resgatar este conhecimento neste belo volume, onde apresentam pegadas e outros vestígios da maior parte dos mamíferos do Pantanal. O livro é amplamente ilustrado e reúne ainda a informação escrita necessária para interpretar os sinais deixados pelos animais. Sinto que agora poderei olhar para rastros que me confundiam como hieróglifos e pensar: aqui passou um cervo, atrás do cervo veio uma onça e atrás da onça...

 

 

Guilherme Mourão

Pesquisador da Embrapa Pantanal

Corumbá, 21 de outubro de 2004