Mapa de Geologia

 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

Geologia


     Célio Eustáquio dos Anjos, geólogo, D.Se., Inpe-DSR

                                                  Rosana Okida, geóloga, M.Se., Inpe-DSR


Introdução

Este trabalho contempla o mapeamento geológico da borda oeste do Panta­nal no Estado do Mato Grosso do Sul. Tem como principal objetivo a confecção de uma base para o Zoneamento Ambiental da Borda Oeste do Pantanal: Maciço do Urucum e Adjacências.

Foram realizadas fotointerpretação de imagens do sensor TM do satélite Landsat-5, observações de campo e coleta de dados litoestruturais. Como resul­tado obteve-se: uma carta temática de geologia, com a identificação das princi­pais unidades litoestratigráficas, sua distribuição, seus principais controles tectono-estrutural-sedímentares e principais feições estruturais que compartimentam a área.


Metodologia

A metodologia de foto interpretação utilizada baseia-se nos princípios da análise lógica e sistemática dos elementos de textura da imagem desenvolvidos por Guy (1966), e adaptados por Veneziani & Anjos (1982), para imagens de saté­lite.

 Nesse método são consideradas as relações métricas e geométricas, e o grau e a ordem de estruturação dos elementos texturais de relevo e drenagem analisados por métodos dedutivos e indutivos, informações bibliográficas e observa­ções de campo, as quais conduzem ao significado geológico (propriedades físi­co-química-mecânicas das unidades litoestratigráficas).

O mapa geológico elaborado contempla informações de caráter litoestratigráfico, litoestrutural, estrutural (tectônica rúptil e dúctil), econômico e geotécnico.

Tais informações foram obtidas da seguinte forma:

- Esboço litoestratigráfico e litológico-estrutural - Obtido pela avaliação dos elementos texturais de relevo e de drenagem, interpretados e correlacio­nados aos dados geológicos de campo e bibliográficos. Foram plotados no mapa dados de acamamento, foliações e fraturas obtidas em trabalho de campo.

  - Localização das ocorrências minerais - Obtida de coordenadas fornecidas pelo GPS nas áreas de explotação ou ocorrências minerais.

  - Caracterização e indicação das propriedades geotécnicas regionais - Base­ada na avaliação indireta das características físico-química-mecânicas das unidades litoestratigráficas identificadas. A avaliação foi feita consideran­do principalmente os aspectos litológicos/ geomorfológicos e estruturais obtidos da fotointerpretação e trabalho de campo, apoiados por dados bibliográficos.

Os materiais utilizados fazem parte do acervo da Embrapa e constam de: a) imagens TM-Landsat-5, WRS 227/73D, em papel fotográfico, composições coloridas bandas 2, 3 e 4 (15/5/1988), e 3, 4 e 5 (23/8/1995) na escala de 1:100.000; b) imagem TM-Landsat-5, WRS 227/73D, em formato digital, bandas 3, 4 e 5 (21/6/1984); c) cartas topográficas, Folhas Corumbá (SE.21-Y-D-II, MI 2469) e Albuquerque (SE.21-Y-D-III, MI 2470); d) cartas geológicas na escala de 1:1.000.000 (DeI' Arco et a1., 1982) e 1:250.000 (Trindade et a1., 1997).

Para espacialização e impressão dos resultados, foi utilizado o Sistema de Informações Geográficas (SGI/lnpe).


Resultados e Discussão

 

A área estudada integra o extremo sul do Craton Amazônico, sendo repre­sentado por rochas pertencentes ao Complexo Rio Apa (Araújo & Montalvão, 1980), constituído por rochas cristalinas (gnaisses, gnaisses graníticos, biotitas gnaisses e hornblenda gnaisses com diques de quartzo dioritos e quartzo gabros, Schobbenhaus & Oliva, 1979) de idade Pré-Cambriana Indiferenciada. Essas ro­chas cristalinas constituem o embasamento de unidades Proterozóicas do Pre-­Cambriano Superior, as quais se incluem na Faixa de Dobramento Paraguai-­Araguaia e são representadas pelos Grupos Cuiabá, Corumbá, Jacadigo e Alto Paraguai, onde os três últimos têm o mesmo posicionamento cronoestratigráfico.

Esses grupos constituem-se de rochas metassedimentares essencialmente elásticas e carbonatadas, e depósitos de ferro e manganês do fácies xisto-verde (filitos, xistos, metarcóseos, ardósias, metassiltitos, mármores calcíticos e dolomíticos do Grupo Cuiabá); rochas elásticas e carbonatadas e calcários calcíticos e dolomíticos do Grupo Corumbá; arenitos arcoseanos, folhelhos cinza, metaconglomerados, jaspelitos e depósitos de ferro e manganês do Grupo Jacadigo.

As principais unidades geológicas identificadas na área correspondem, do topo para a base, aos: Aluviões Atuais; Formação Pantanal; Formação Xaraiés; Depósitos Coluvionares Detríticos e Sedimentos Detritícos de idade Quaternária; sedimentos detríticos carbonáticos da Formação Tamengo; dolomitos da Forma­ção Bocaina; sedimentos detríticos com depósitos de ferro e manganês da For­mação Santa Cruz; conglomerados e metarcóseos da Formação Urucum; além dos gnaisses, gnaisses graníticos e xistos do Complexo Rio Apa, podendo ser observadas no mapa geológico na escala de 1:100.000.


Estratigrafia

Aluviões Atuais (Ha)

       São compostos por areias quartzosas de granulação fina e fina a média, siltes, argilas e cascalhos relativos aos depósitos de planície de inundações fluviais e fluviolacustres de idade Holocênica.

Apresentam estratificação gradacional, com granulometria decrescente da base para o topo, e intercalações e interdigitações de camadas de areias e siltes. Eventualmente ocorrem depósitos de barra em pontal exibindo estratificação cru­zada e pelitos finamente laminados.

De pouca expressão areolar na área mapeada, os aluviões podem ser deli­mitados de forma relativamente fácil pela fotointerpretação da composição colo­rida da imagem do TM-Landsat.

Encontram-se principalmente na porção nordeste e sul da área de estudo (regiões dos rios Paraguai e Verde, respectivamente). Areias, argilas, cascalhos, ouro e diamante são suas principais potencialidades metalogenéticas.


Formação Pantanal (Qp)

 

 

É formada por sedimentos aluviais dominantemente argilosos, argilo-arenosos, sílticos, arenosos e areno-conglomeráticos (camadas inferiores da seqüên­cia) semiconsolidados e inconsolidados de idade Pleistocênica/Quaternária. É relacionada aos depósitos fluviais e lacustres de áreas periodicamente inundáveis ou sujeitas a inundações ocasionais.

Essa unidade foi descrita por Oliveira & Leonardos (1943) para denominar as formações sedimentares existentes na Depressão do Rio Paraguai, e nas planí­cies e nos pantanais mato-grossenses. Apresenta espessura variável que pode atingir até 200 m (DeI' Arco et aI., 1982), em virtude da irregularidade do seu substrato (presença de sistemas de horsts e grabens) e de estar em franco processo de desenvolvimento.

Seus depósitos recobrem localmente acumulações quaternárias mais anti­gas (Formação Xaraiés e Depósitos Detríticos) com relações de contato transicional (mudança de fácies). Possui registros fósseis muito escassos e bem pouco estu­dados, sendo que a maioria não se presta à cronoestratigrafia.

Sua idade mínima deve ser posterior à abertura da Depressão do Rio Paraguai (área de Relevos Denudacionais, de acordo com o mapa geomorfológico ora elaborado), ou seja, concomitante ou imediatamente após a formação do pediplano de idade Pliopleistocênica. Sua ocorrência na área se restringe a pe­quena exposição a sudoeste da Lagoa Negra.

A descrição dos sedimentos da Formação Pantanal é dificultada pela au­sência de afloramentos em face da topografia plana e da cobertura vegetal.

 Ao longo dos rios encontram-se algumas barrancas exibindo aqueles sedi­mentos, constituindo os únicos afloramentos naturais.


Depósitos Detríticos (QPdl/ mf)

 

Compostos por sedimentos conglomeráticos e areno-siltosos, parcial ou to­talmente laterizados e lateritos ferruginosos de idade Pleistocênica. Apresentam-­se como cones de dejeção coalescentes, coluviões, eluviões, aluviões e carapaças ferruginosas que ocorrem nas áreas pediplanadas da Depressão do Rio Paraguai, circundando as morrarias.

Sua distribuição irregular e descontínua é das mais expressivas. Tem suas maiores ocorrências em torno dos morros do Urucum, Grande, de Santa Cruz e do Rabichão, onde se concentram coluviões com minério de ferro, e nas áreas sudoeste e centro-leste, onde predominam os aluviões e as carapaças ferruginosas.

De acordo com dados bibliográficos, as acumulações tidas como depósitos quaternários antigos foram formadas sob condições climáticas distintas da atual. Suas origens remontam, provavelmente, à época da abertura da Depressão. do Rio Paraguai e da elaboração do Pediplano Pliopleistocênico. É provável que tenham desenvolvido ou sofrido também, durante o Pleistoceno, interferências de processos erosivos em conseqüência das oscilações climáticas. Sobre esses sedimentos colúvio-aluviais, que são a grande maioria, encontram-se blocos e matacões soltos, que evidenciam processos erosivos recentes atuando nas escarras, e que configuram pedimentos típicos.

 Os colúvios da região de Urucum são formados por fragmentos dominantemente angulosos, com tamanhos que variam de seixos a matacões, compostos sobretudo por sedimentos ferríferos oriundos da Formação Santa Cruz. Os fragmentos mais comuns são de hematita fitada e de jaspelito ferruginoso e alguns de arcóseo ferruginoso.

Por processos de lixiviação, a sílica presente nos fragmentos de jaspelito foi retirada, aumentando o teor em ferro. Por essa razão, tais depósitos coluviais são considerados como o minério de ferro mais rico da região.


Formação Xaraiés (Qx)

 

Descrita por Almeida (1943; 1945), essa formação de idade Pliopleistocênica é considerada como um depósito de pedimento antigo, originado concomitante­mente após a abertura da Depressão do Rio Paraguai.

Suas principais áreas de ocorrência estão na região sudoeste, entre o Morro  do Jacadigo e o Córrego Morrinhos, a oeste da Lagoa Negra e a sul do Morro do  Zanetti. É composta por tufos calcários com vegetais fósseis, tufo calcário leve,  muito esponjoso travertino com gastrópodes, e conglomerados com cimento calcífero. Há depósitos superficiais em áreas próximas de ocorrências de rochas calcárias (no topo da escarpa da margem direita do Rio Paraguai, na cidade de Corumbá).

         Está disposta sobre uma superfície de erosão levemente ondulada recobrindo rochas dos Grupos Corumbá e Jacadigo. Ao sul de Corumbá, recobrem as rochas do Grupo Corumbá (Formação Tamengo e Formação Bocaina do Grupo Jacadigo (Formação Urucum) e rochas do Complexo Rio Apa.

São provavelmente contemporâneos aos Depósitos Detríticos colúvio-aluviais que circundam as morra rias de Urucum e estratos inferiores da Formação Pantanal. Sobre tal formação acumulam-se sedimentos aluviais, tanto da formação Pantanal como dos Aluviões Atuais.

Por causa de sua característica geralmente coesa, as rochas dessa unidades são utilizadas largamente na construção civil, sobretudo como cascalhos para pavimentação de estradas.

 

Formação Tamengo (PEta)

 

Pertencente ao Grupo Corumbá, essa formação, descrita por Almeida (1945) e datada como sendo do Pré-Cambriano Superior (Fairchild, 1978), é composta por calcários calcíferos negros, folhelhos, siltitos e arenitos calcíferos finam laminados, esverdeados, arroxeados e creme, e níveis de calcários oolíticos freqüentes.

 Suas rochas geralmente são finam ente cristalinas com raros cristais milimétricos. A estratificação é principalmente plano-paralela, podendo ocorrer a estratificação cruzada e marcas de onda nos termos detríticos, como as cama­das de arenitos.

Tem sua principal exposição situada à margem direita do Rio Paraguai, entre Corumbá e Ladário, no Canal Tamengo, que liga esse rio à Lagoa de Cárce­res, e a sul dessa área, ao longo da estrada para a Morraria do Jacadigo, até as imediações da sede da Fazenda Paiolzinho, e na Sinclinal da Lajinha, 13 km ao sul de Corumbá. Em alguns locais são oolíticos, a exemplo do afloramento ob­servado ao longo da estrada entre Corumbá e Morraria do Jacadigo.

Os sedimentos detríticos são geralmente de pequena espessura (centimétrico a decimétrico). Os siltitos e folhelhos têm cores esverdeada e mar­rom escuro-arroxeada, tomando-se de cor creme a amarelada quando alterados. Pacotes areníticos, comumente associados aos siltitos, são de granulação fina, micáceos e calcíferos. Sua coloração varia de cinza a pardo.

Dispõem-se sempre em lâminas ou camadas de pequena espessura (decimétricas), geralmente intercalados aos calcários e arenitos, mas podem ser encontrados formando pacotes com mais de uma dezena de metros de possança. Com base nas informações de Almeida (1945), pode-se atribuir uma espessura mínima em tomo de 200 m para essa formação.

Nas suas áreas de ocorrência, próximas à cidade de Corumbá, a observação do limite entre essa formação e as rochas subjacentes da Formação Bocaina é prejudicada pela cobertura sistemática de solo de alteração e depósitos recentes. Entretanto, esses contatos podem ser observados com relativa segurança sobre as imagens fotográficas e indicam que nessa região a maioria dos contatos entre as duas se faz por alinhamentos identificados como falhamentos normais. Esses falhamentos associam-se às brechas de falha e falhas transcorrentes, as quais im­primem estruturas de estiramento e formação de faixas com foliação milonítica-­cataclástica verticais sobre os sedimentos originalmente suborizontalizados.

A direção principal dos falhamentos é N40-50E, o que, aliás, a caracteriza como a principal direção estrutural que deforma toda a área. Seu con­tato inferior com a Formação Bocaina é transicional, e no topo está recoberta, em discordância angular ou erosiva, pelos sedimentos quaternários da Formação Xaraiés e pelos Aluviões Atuais.

Os sistemas de fraturas ocorrem de forma bastante intensa sobre essas ro­chas, com planos de fraturas às vezes irregulares e conchoidais, e diáclases se­gundo planos de direção NE-SW, ENE-WSW, NNW-SSE e NW-SE. Ao longo des­ses planos são encontrados veios de calcita (muitos dos quais drusiformes) às vezes associada com fluorita, como verificado na Pedreira da Lajinha. À margem direita do Canal Tamengo, no local denominado Porto Aurora, os sedimentos mostram evidências de cisalhamento, microdobramentos e fraturas preenchidas por veios de quartzo.

 Os arenitos estão normalmente associados aos siltitos. Têm coloração par­da ou cinza-escura, às vezes clara, granulação fina, são micáceos e calcíferos e podem apresentar estratificação cruzada e marcas de onda.

Nessa formação há várias pedreiras que explotam o calcário. Entre elas, des­tacam-se a da Lajinha, com explotação a céu aberto; a Saladeiro,localizada à mar­gem direita do Rio Paraguai, entre Corumbá e Ladário, em frente à fábrica de cimento Itaú; e a do Morro do Bugão, situada a aproximadamente seis quilôme­tros a sudeste de Corumbá (a dimensão aproximada da frente de lavra é 100 m de comprimento por 15 m de altura).

Dados bibliográficos indicam a possibilidade de ocorrência de chumbo e zinco nos calcários, veios de calcita e fluorita, e lentes de fosfato nos termos argilo-­carbonatados e calcários.

 

Formação Bocaina (PEbo)

 

A Formação Bocaina foi assim denominada por Almeida (1945) para descre­ver calcários dolomíticos da região de Corumbá. Esses calcários dolomíticos fo­ram também descritos por Correia et aI. (1976), bem como os calcários e mármo­res subordinados. Concordando com esses autores, Nogueira et aI. (1978 apud Trindade et aI., 1997) subdividiram a formação em dois membros, um calcítico e outro dolomítico.

Essa formação do Pré-Cambriano Superior é composta por calcários dolomíticos localmente silicificados, de colorações cinza e esbranquiçada, even­tualmente róseos; calcarenitos dolomíticos com níveis oolíticos calcíferos, geral­mente mais abundantes que a matriz dolomítica, sem modificações de formas e com estruturas estromatolíticas (Clube de Tiro - Corumbá). Tais litologias estão muitas vezes silicificadas e localmente brechadas.

 Apresentam estratificação quase sempre pouco visível, porém quando ob­servada é do tipo plano-paralela, com espessuras que variam de decímetros a metros. Tal estrutura é evidenciada por delgadas intercalações de sedimentos pelíticos ou de lentes arenosas, ou ainda por variações de coloração nos estratos. Bons exemplos dessa característica podem ser vistos nos cortes da Pedreira Xavier, na morra ria a sul do aeroporto de Corumbá.

Durante o procedimento de fotointerpretação na área considerada como per­tencente à Formação Bocaina, foi possível a individualização de porções com propriedades distintas, segundo o critério de caracterização físico-químico-me­cânico empregado. Nos trabalhos de campo, pode-se confirmar variações de pre­dominância litológica associadas a essas áreas individualizadas foto-geologi­camente. A principal delas ocorre na porção sul dessa formação e imediatamente a sul da cidade de Corumbá, associada a pequenos morros que ali se distribuem, abrangendo uma área de forma grosseiramente alongada na direção E-W.

 Observações de campo e descrições mesoscópicas de amostras em afloramentos identificaram essa porção como um calcário dolomítico oolítico de cor cinza-clara, com oólitos de calcário calcítico escuro e que pode estar associa­do àqueles membros calcíticos dessa unidade, descrito por Nogueira et aI. (1978 apud Trindade et aI., 1997), e ainda indiviso em termos de mapeamento na área. As rochas calcíticas encontram-se intensamente fraturadas, com espaçamentos variando desde centimétrico até decimétrico, principalmente nas direções N50E e N15E.

 Outra região de ocorrência da Formação Bocaina, também diferenciada em termos de fotointerpretação, é a área a sul do Morro do Zanetti, que apresenta uma topografia plana, quase horizontal, distinta daquela colinosa encontrada na morraria. No campo, embora não seja conclusivo em termos de separação, foi observado que essas são áreas baixas, intensamente silicificadas, com fraturas preenchidas por sílica e pequenos cristais de quartzo hialino, formando drusas. Dessa forma, ficou sugerido no mapa geológico um provável contato entre pre­dominâncias litológicas, separando termos mais calcíticos/ dolomíticos de ter­mos mais silicificados.

Entre as principais áreas de ocorrência, destacam-se as morrarias que circundam Corumbá e as morrarias do Zanetti e Pelada. Na região de Corumbá, Almeida (1945) indicou para os dolomitos Bocaina valores de espessura de no mínimo 300 m.

 A Formação Bocaina encontra-se sobreposta discordantemente sobre as ro­chas do Complexo Rio Apa, e com a Formação Tamengo apresenta contatos transicional e tectônico pelas falhas normais desenvolvidas sobre linhas de fa­lhas direcionais, resultantes do processo de reativação distensiva terciária a que teria sido submetida aquela área.

Afora a presença de mármores, as evidências mais marcantes de atuação tectônica sobre as rochas da Formação Bocaina são os estratos dobrados e as inú­meras fraturas. Estratos dolomíticos com pequenos dobramentos (reflexos de outros maiores) foram vistos, por exemplo, nos flancos da Braquianticlinal de Porto Carrero e na Pedreira Xavier. As fraturas apresentam direções tanto NE-SW quanto NW -SE e mergulhos verticais ou inclinados. Quase sempre estão preenchidas por veios de quartzo, muitos dos quais drusiformes, com cris­tais hialinos, bem como veios de sílex e calcita. Apresenta feições cársticas, nota­das na configuração do relevo.

Há várias pedreiras com explotação de calcário nessa unidade: Pedreira Morro do Bugão e Pedreira Xavier, que produz brita para a construção civil em Corumbá, e pó calcário para Ponta Porã (as dimensões da frente de lavra atingem 300 m de comprimento por 3 m e 10 m de altura). Essa última situa-se a aproximadamente três quilômetros a sudoeste de Corumbá.

Da mesma maneira que a Formação Tamengo, essa unidade possui como possibilidades metalogenéticas chumbo e zinco nos calcários e dolomitos, calcários calcíticos e dolomíticos, mármores e veios de calcita.

 

Formação Santa Cruz (Pese)

 

Essa formação é responsável pelos relevos mais altos da região, e que com­põem as morrarias do Urucum, da Tromba dos Macacos, do Jacadigo, de Santa Cruz, São Domingos, Grande e do Rabichão. O seu conteúdo litológico (sedi­mentos ferríferos) apresenta uma grande resistência à erosão, o que proporcio­nou a formação de relevos residuais, com as bordas escarpadas e o topo relativa­mente plano em conseqüência do processo de dissecação.

As primeiras descrições de depósitos de ferro e manganês na região foram feitas por Evans (1894). Posteriormente, depois de inúmeros estudos, essa se­qüência rochosa foi descrita por Almeida (1945) e Putzer (1959 a; b), que a inclu­íram no Grupo Jacadigo. Essa unidade apresenta idade Pré-Cambriano Superior.

É uma das formações geológicas que melhor se destaca sobre os produtos orbitais. Seus contatos são realçados pelo relevo de escarpas de falha que estão associadas na maioria das vezes a sua distribuição. Formam em geral topos aplai­nados e ondulados com características particulares nas imagens coloridas utili­zadas em razão da resposta particular do material que a compõe (solo e vegeta­ção).

Sua espessura atual é variável e, segundo Almeida (1945), atinge um total de 420 m no Morro do Urucum. Nessa seqüência estão inclusos cerca de 100 m de sedimentos clásticos e subordinadamente químicos e ferruginosos. A espessura original da Formação Santa Cruz não pode ser determinada, visto que sobre ela atuaram diversos ciclos erosivos dos quais resultaram os relevos hoje observa­dos.

 É composta por jaspelitos ferruginosos, hematita fitada, intercalações de camadas e lentes de óxido de manganês, arcóseos ferruginosos emanganesíferos, arenitos ferruginosos e conglomerados. Os arenitos arcoseanos jaspelíticos mos­tram estratificação cruzada e plano-paralela. Passam gradualmente na base para os arcóseos Urucum. Segundo Almeida (1945), a cor desses arenitos é variável de acordo com a maior ou a menor freqüência de jaspe (vermelho-cereja), hematita (vermelho-pardacento-escura ou cinza de aço) ou óxido de manganês, que ocor­rem em partículas submilimétricas ao lado de quartzo detrítico (raro), calcedônia, etc.

 No Morro do Urucum os arenitos arcoseanos jaspelíticos são bem caracteri­zados. O limite inferior desses arenitos arcoseanos é indicado por um arcóseo amarronzado, manganesífero, que passa a um arcóseo e arenito ferruginoso.:.ver­melho, com cimento hematítico, nos quais se intercalam, gradativamente, em maior número no sentido ascendente, camadas de jaspelito hematítico e hematita. O limite superior foi a base do leito inferior da camada de óxido de manganês mais baixa. Essa camada, denominada Primeira Camada de Óxido de Manganês, é recoberta, na mina de Urucum, por um nível de arcóseo manganesífero, decimétrico, contendo esparsamente blocos e matacões graníticos.

 Trabalhos efetuados na década de 80 encontraram evidências de interdigitações entre as seqüências basais dos Grupos Corumbá e Jacadigo, rela­ção essa que ainda está sendo estudada. Nas morrarias Grande e do Rabichão, os sedimentos ferríferos da Formação Santa Cruz são recobertos por colúvios oriun­dos da própria formação.

A unidade em questão também é encontrada em contato, por meio de falhamento, com calcários da Formação Bocaina (Morraria Santa Rosa, situada ao norte da Morraria do Rabichão, à margem do Rio Paraguai). Relação similar, em contato com falha normal, ocorre no flanco leste da Sinclinal da Lajinha. É menci­onado ainda, na porção oeste da mesma sinclinal, um provável contato em discordância angular com os calcários Bocaina recobrindo rochas da Formação Santa Cruz.

De acordo com a literatura, há uma possível presença de estruturas biogenéticas nos jaspelitos ferruginosos. Essa unidade apresenta grande interes­se sob o ponto de vista econômico por encerrar importantes depósitos de ferro e manganês. Destacam-se as minas de:

  - Urucum - Apresenta camada de óxido de manganês (criptomelana com teores que variam de 42% até mais de 46%) intercalada a jaspelito hematítico, cujos mergulhos variam de 8° a 15° para norte, hematita fina com intercalação regular de lâminas e finas camadas ou lentes de jaspe, e intercalação restrita de arenito arcoseano jaspelítico. O minério de manganês é lavrado através de túneis escavados, seguindo o método de salões e pilares, e retirado por intermédio de vagonetes. O minério de ferro é lavrado a céu aberto nas encostas do morro, com auxí­lio de pá carregadeira, e embarcado diretamente em caminhões, atingin­do uma produção de 6.000 toneladas/mês, com teor médio de 65% em ferro;

  - Santana (Mineração Mato Grosso S.A.) - Situada na Morraria do Rabichão. A camada ou zona mineralizada é composta por arcóseo manganesífero contendo lentes de criptomelana e nódulos de pirolusita, associados a seixos, blocos e matacões de rocha granítica dispersos. Nessa jazida o teor em manganês é pouco mais elevado do que em Urucum, variando em torno de 48%, em virtude da presença de pirolusita, que se concentra sobretudo ao longo de fraturas. Sobre a camada mineralizada, têm-se os jaspelitos da Formação Santa Cruz;

. - Corumbaense Reunida S.A. - Situada na Morraria de Santa Cruz. Do ponto de vista estratigráfico, nessa morraria pode-se observar quatro camadas de minério de manganês, expostas em diferentes frentes de lavra. As rochas mostram, localmente, leves dobramentos, provavelmente tectônicos, e o seu conjunto apresenta-se fortemente laminado com altitudes que va­riam de N60E/9SE e N65E/13SE.

 

Formação Urucum (PEU)

 

Descrita como a unidade inferior do Grupo Jacadigo, foi originalmente de­finida por Lisboa (1909), a sul de Corumbá.

A Formação Urucum vem sendo sistematicamente alvo de considerações sobre a sua caracterização estratigráfica e mesmo litológica no decorrer deste século. Sua litologia é constituída predominantemente por arcóseos grosseiros e arcóseos conglomeráticos esverdeados com coloração amarelada a marrom quan­do intemperizados. Encontram-se associados às seqüências de grauvacas, arenitos arcoseanos, arenitos quartzosos, paraconglomerados, siltitos e localmente calcários.

Os arcóseos, comumente de granulação grosseira, mostram níveis de granulação fina e conglomeráticos, com estratificação gradacional, plano-parale­la e estratificação cruzada (DeI'Arco et al, 1982) na área da mina do Urucum. De acordo com Almeida (1945), o quartzo é o mineral detrítico mais abundante nes­se arcóseo.

 Os arcóseos com cimento calcífero têm seixos e matacões de rochas de compo­sição variada (granitos, calcários, quartzito, quartzo gnaisse, xistos anfibolitos e dioritos dispersos), os quais variam de afloramento para afloramento. Barbosa & Oliveira (1978) descreveram alguns desses conglomerados como, "brechas de tálus", atribuindo-Ihes origem tectônica associada a falhamentos. E admitida, a partir das análises de microfósseis encontrados em arcóseos, idade Pré-Cambriana Superior para essa formação.

As áreas de ocorrência da Formação Urucum são bastante restritas, sendo que tal unidade pouco afIora em virtude da sua posição estratigráfica sob os sedimentos resistentes da Formação Santa Cruz e da cobertura coluvial expressi­va. Entre as principais áreas onde ocorre estão: borda sul do Morro da Tromba dos Macacos; encostas orientais do Morro do Urucum e borda nordeste da . Morraria de Santa Cruz.

Os sedimentos, dessa formação são encontrados nas encostas dos relevos mais elevados que se distribuem à margem direita do Rio Paraguai. Especifica­mente, verificam-se a sul de Corumbá, nas morrarias do Jacadigo, da Tromba dos Macacos, do Urucum, de Santa Cruz, Grande e do Rabichão, na borda noroeste da Morraria do Zanetti e ao norte da Tromba dos Macacos, contornando os calcários adjacentes à Pedreira Lajinha. Uma ocorrência isolada constitui o Mor­ro do Ladário, situado à margem oriental da Lagoa Negra.

As informações sobre a espessura da Formação Urucum indicam valores distintos para as diversas ocorrências, visto que, segundo Barbosa & Oliveira (1978), a formação parece estar relacionada às irregularidades do substrato na bacia, ocasionadas por falhamentos ativos durante a deposição. Almeida (1945) mediu uma espessura máxima de 280 metros.

A Formação Urucum assenta-se discordantemente sobre as rochas graníticas e gnáissicas do Complexo Rio Apa e é recoberta, em contato gradacional, pela Formação Santa Cruz. É recoberta ainda por sedimentos quaternários diversos pertencentes à Formação Xaraiés, Depósitos Detríticos e Aluviões Atuais. Local­mente observaram-se sedimentos da Formação Urucum sotopostos aos calcários da Formação Bocaina. Essa relação pode ser verificada a sudoeste da Pedreira Lajinha, onde, nas encostas dos morros, afIoram arcóseos esverdeados e avermelhados, com níveis conglomeráticos e conglomerados, e, no topo, lajedos e matacões de calcários laminados e maciços. O contato entre as Formações Urucum e Bocaina efetua-se ainda por falhamentos, conforme indicado na Morraria do Zanetti.

 Segundo a literatura, a ocorrência de cobre do tipo estratiforme é uma das possibilidades metalogenéticas dos arenitos arcoseanos.

 

Complexo Rio Apa (PEra)

 

Essa unidade, correlacionável ao Pré-Cambriano Inferior a Médio, é com­posta pelas rochas basais mais antigas da área. Trata-se de um conjunto polimetamórfico onde se reconhece gnaisses, gnaisses graníticos, granitos, xistos, granodioritos e quartzo sienitos (Araújo & Montalvão, 1980). Tem sua maior representatividade no limite sul! sudeste e na parte centro norte da área de estu­do. Na primeira área faz contato por inconformidade e tectônico por falhamento com calcários da Formação Bocaina e da Formação Urucum, enquanto na segun­da área, por discordância com calcário da Formação Bocaina e com a Formação Tamengo por falhamentos normais de direção N40-50E.

Encontra-se ainda recoberta pelas seqüências quaternárias das Formações Pantanal e Xaraiés e Depósitos Detríticos Lateríticos areno-argilosos e coluviões. V árias outras pequenas exposições podem ser observadas: a sul de Corumbá, a sul do Morro do Rabichão, a oeste e a sul do Morro do Urucum e a nordeste da Morraria de Santa Cruz. Normalmente estão em locais de topografia horizontalizada ou de pequenos morros.

Afloramentos de rochas graníticas e gnaisses são observados a meia encos­ta do Morro do Urucum nos cortes da estrada que leva à mina do Urucum, indi­cando ser esse um dos blocos estruturais mais fortemente alçados na topografia por movimentos verticais. Nas rochas cristalinas são observadas estruturas metamórficas e tectônicas: xistosidade, foliações, foliações milonítica-cataclásticas, etc. As estruturas cataclásticas originaram localmente os gnaisses e micaxistos, enquanto, de acordo com dados bibliográficos, as eruptivas básicas metamorfizadas originaram, provavelmente, os anfibólios xistos.

De acordo com a literatura, o Complexo Rio Apa apresenta as seguintes possibilidades metalogenéticas: columbita-tantalita, berilo, turmalina e mica em granitos alterados por metassomatismo e em veios pegmatíticos, e ouro associa­do aos veios de quartzo.

 

Tectônica Estrutural

 

As tectônicas dúctil e rúptil manifestam-se sobre as unidades litoestratigráficas da área pelas estruturas dobradas e falhamentos. Evidenciam a atuação de esforços compressivos e distensivos na área, onde os episódios de cisalhamento e cataclase, atribuíveis a diferentes fases tectônicas, deformaram as rochas do Complexo Rio Apa. Essas estruturas não apresentam comportamento homogêneo em toda a região em virtude das litologias.

Dessa forma, os Grupos Corumbá e Jacadigo mostram dobramentos descontínuos localizados, com eixos de direção geral NNW-SSE e deformações provavelmente ocasionadas por falhamentos direcionais e normais.

          Entre as estruturas presentes na área de estudo, destacam-se o Sistema de Falhas do Urucum e a Sinclinal da Lajinha.

          O Sistema de Falhas do Urucum refere-se ao conjunto de falhas normais com direções variando de N30E a N50E, descritas por Almeida (1945), que compartimentaram O Maciço do Urucum. A maioria das falhas está encoberta por depósitos coluviais ou aluviais (sendo portanto maiores que o indicado em mapa) e esteve ativa no Terciário, durante a Orogenia Andina, provocando, juntamente com as demais falhas paralelas, o adernamento de blocos de falhas, permitindo a configuração do relevo atual Nos blocos de falha, as rochas do Grupo Jacadigo mostram-se, em decorrência, deformadas, apresentando localmente, em um mes­mo bloco, mergulhos para quadrantes diferentes (no bloco do Urucum as cama­das mergulhando em geral para NW e, na face voltada para o vale Band' Alta, mergulho para ESE. No Morro da Tromba dos Macacos as camadas apresentam mergulho de até 25° para o centro, configurando uma sinclinal com plano axial proximamente vertical, e com eixo mergulhando cerca de 10° a 20° na direção N45E. No bloco de Santa Cruz, Grande e do Rabichão as camadas apresentam, em grande parte, mergulhos gerais para leste, tanto NE como SE. Na Morraria do Jacadigo, ao lado da linha de fronteira Brasil-Bolívia, as camadas representam uma sinclinal, com caimento para WNW).

Transversalmente às falhas normais do Sistema do Urucum, há falhamentos de direções NW-SE, NE-SW e subordinadamente N-S, atingindo tanto as rochas do Complexo Rio Apa, como dos Grupos Jacadigo e Corumbá.

 Na região de Corumbá também foram mapeadas várias falhas normais, pa­ralelas ao Sistema de Falhas do Urucum, produzidas em rochas calcárias. Essas falhas são indicadas por feições lineares interpretadas sobre os produtos orbitais e, no campo, por rochas fraturadas e/ou brechadas.

A Sinclinal da Lajinha é uma estrutura dobrada de formato triangular, limi­tada por falhas, com eixo de sentido geral N55E, inclinado. Está situada a noroes­te do Morro do Urucum e em seu interior localiza-se a Pedreira Lajinha, de onde se extrai calcário calcífero.

No flanco noroeste da Sinclinal da Lajinha, limitado por falhamento, as ca­madas apresentam mergulhos da ordem de 60° S, enquanto o flanco sudeste da dobra é fixado por extensa falha normal, com direção geral N40E, e mergulho forte para noroeste (esta falha colocou os calcários Tamengo em contato com ro­chas granito-gnáissicas do Complexo Rio Apa).


 

Aspectos econômicos

 

A área de estudo apresenta várias potencialidades econômicas, como jazi­das de ferro e manganês, e reservas de rochas carbonáticas (calcários e dolomitos) que abastecem as indústrias de cal, cimento e da construção civil (brita, pavi­mentação asfáltica e alvenaria). Os dolomitos também são utilizados como maté­ria-prima no processo de fabricação do aço tipo "LD".

Segundo Walde et aI. (1987), o minério de manganês pode ser discriminado em dois tipos, a saber: a) o tipo Urucum-Santa Cruz, fina e ritmicamente estratificado; e b) o tipo Mato Grosso, da mina homônima, na Morraria do Rabichão, de aspecto concrecionário e algumas vezes nodular. O principal cons­tituinte do minério de manganês da região é a criptomelana, sendo a pirolusita constituinte minoritário.

Quanto ao minério de ferro, Haralyi & Barbour (1975) o classificaram em três grupos: a) minério primário in situ, do tipo jaspelito; b) minério coluvial enriquecido; e c) minério tipo "canga".

Na região, as rochas graníticas do Complexo Rio Apa fornecem areias gros­sas para a construção civil (Figura 13) e, junto com os mármores da Formação Bocaina, constituem materiais para revestimento como pedras ornamentais. Os depósitos de argilas e areias são abundantes na Formação Pantanal e nos aluvi­ões do Rio Paraguai; enquanto brita e material para revestimento de estrada são oriundos dos Depósitos Detríticos e das cangas e cascalheiras da Cobertura De­trito-Laterítica.


   

Características geotécnicas

 

As cartas geotécnicas são usualmente confeccionadas em escalas de deta­lhe, como subsídio ao planejamento e elaboração de projetos específicos de en­genharia. Essas cartas normalmente se utilizam de um grande número de variá­veis, que são destinadas à integração e análise das condições físico-químico-me­cânicas específicas (para a finalidade a que se destina).


Os métodos e procedimentos utilizados na realização do mapa geológico baseiam-se nas relações métricas e geométricas obtidas dos elementos texturais de relevo e drenagem. Tais relações ensejam a caracterização físico-químico-me­cânica do terreno, e são a base para a sua subdivisão em zonas homólogas.

Os principais atributos analisados nessa caracterização são: tipos de mate­riais inconsolidados (sedimentos recentes, solos e rochas alteradas) e coesivos (rochas frescas, afloramentos rochosos); tipo de relevo; e permeabilidade relati­va (função da densidade de drenagem, fraturamento, tipo lito1ógico e padrões de drenagem).

Essa análise apresenta informações de caráter generalizado, ou caracterização de mu1tiuso, que orienta o planejamento e o uso dos terrenos com um enfoque de macrozoneamento, onde são indicadas a "vocação" geotécnica desses terre­nos e suas adequações para: "escavabilidade", potencial para materiais de cons­trução; obras viárias; desenvolvimento urbano e industrial; e deposição de rejeitos sépticos.

. Escavabilidade - Possibilidade de os materiais inconsolidados serem escaváveis por meios mecânicos. É dividida nas seguintes classes: ade­quada; com restrições localizadas; com restrições; com severas restrições; e imprópria;

. Localização de áreas de suprimento de materiais de construção - Indica a potencialidade de encontrar áreas para exp10tação de argila, areia e brita com alto, médio e baixo potencial;

. Obras viárias - Consideram as propriedades viáveis ou não para a cons­trução de ferrovias e rodovias. Divididem-se nas classes: adequadas; com restrições localizadas; com restrições; com severas restrições; e impróprias;

. Desenvolvimento urbano intensivo e desenvolvimento industrial - En­tendidos como a expansão acelerada e indiscriminada de núcleos urba­nos e ocupação industrial. As classes foram definidas como as do item anterior;

. Rejeitos sépticos - Consideram os riscos de poluição de aquíferos super­ficiais e subterrâneos. Correlacionam-se com a permeabilidade dos terre­nos em uma determinada unidade. As classes são as mesmas dos itens anteriores;

. Erodibilidade - Foi utilizada a classificação do mapa de Potencial Erosivo    apresentada neste trabalho;

. Riscos geológicos - Avaliam o potencial de uma área quanto à ocorrência de movimentos de massa (deslizamentos e quedas de blocos) baseado na declividade, configuração do relevo, tipo e natureza dos materiais, pa­drões de drenagem e cobertura vegetal.

A metodologia e o procedimento de análise adotados neste trabalho foram os utilizados por Kurkdjian et aI. (1992) no projeto Mavale.


 

Conclusões e Recomendações


A área de estudo se faz representar por rochas cristalinas de idade Pré­-Cambriano Indiferenciada, pertencentes ao Complexo Rio Apa, o qual constitui o embasamento dos grupos Cuiabá, Corumbá, Jacadigo e Alto Paraguai, da Fai­xa de Dobramentos Paraguai-Araguaia.

A distribuição das unidades Proterozóicas e Recentes na área evidenciam um forte controle estrutural! tectônico sobre a deposição e a preservação e ero­são das unidades estratigráficas presentes, particularmente a partir do Terciário, desenhando grosso modo o arcabouço tectônico da região.

Os altos e baixos estruturais se definem pelos blocos falhados escalonados em horts e grabens, de direções gerais NE-SW, NW-SE e N-S. Esses altos e baixos associam-se a áreas de erosão e acumulação, e seus limites desenham as princi­pais linhas estruturais (falhas normais), resultantes da reativação de estruturas de cisalhamento do embasamento cristalino.

Considerando as amplas áreas de depósitos detríticos quatemários que ca­racterizam a região do Pantanal, esse quadro nos remete à conclusão simples de que essa região encontra-se tectonicamente ativa e ainda em franco processo de subsidência.

O principal potencial econômico do ponto de vista mineral são as jazidas de ferro e de manganês e as reservas de rochas carbonáticas que abastecem as indústrias de cal e cimento, além de material para construção civil.

Do ponto de vista do uso e conservação, algumas aspectos gerais podem ser considerados, enquanto que os de caráter mais localizados encontram-se na Tabela 1.

. As Formações Xaraiés e Bocaina apresentam-se como as mais adequadas    para o uso e a ocupação urbana;

. A Formação Bocaina, muito fraturada, propicia a formação de diedros em sua massa rochosa, os quais, sujeitos ao intemperismo e dissolução, re­presentam, na região das morrarias da área de estudo, um fator de risco, associado à queda de blocos;

. As áreas da escarpa da Formação Santa Cruz e os cones de dejeção for­mando colúvios com minério de ferro em tomo dos morros do Urucum, Grande, Santa Cruz e Rabichão são extremamente sensíveis às atividades humanas (mineração e exploração agropastoris). Seu uso inadequado pode provocar desequilíbrios dando origem a grandes movimentos de massa e queda de blocos e o subseqüente recobrimento de áreas adjacentes.


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