Arqueologia


  José Luis dos Santos Peixoto, arqueólogo, M.Sc., Universidade Federal do Mato Grosso do Sul ­                                  UFMS/Ceuc/Conselho Nacional de Pesquisa Tecnológica - CNPq

João dos Santos Vila da Silva, matemático, M.Sc., Embrapa Pantanal
Edileuza Carlos de Meio, geóloga, bolsista CNPq/RHAE

    

      Introdução

       Os estudos arqueológicos no Pantanal Sul-Mato-Grossense tiveram início em 1990 por meio do Projeto Corumbá, a partir de um convênio entre o Instituto Anchietano de Pesquisas, a Universidade do Vale do Rio dos Sinos e a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/Centro Universitário de Corumbá. Atualmente, desenvolvem-se estudos arqueológicos, dentro do Projeto Vitória-Régia, pelo Centro Universitário de Corumbá, Departamento de Ciências do Ambiente.

Os dados aqui apresentados fazem parte das pesquisas realizadas nesses dois projetos, associados aos estudos ambientais desenvolvidos por esse zoneamento. O presente trabalho propõe-se a apresentar uma visão geral sobre os tipos de sítios arqueológicos que ocorrem na área de estudo, com a finalidade de delimitar as áreas potencialmente favoráveis à ocorrência de assentamentos das populações indígenas pré-coloniais que ocuparam a borda oeste do Pantanal, Maciço do Urucum e adjacências. Para tanto, utilizou-se um sistema de informações geográficas com a finalidade de integrar as informações provenientes da geociência e da arqueologia.


 Metodologia 

As estratégias utilizadas para o levantamento arqueológico basearam-se em variáveis arqueológicas e ambientais, conforme proposto por Peixoto & Isquierdo (1997), com os seguintes procedimentos: a) estudo da documentação disponível dos padrões de assentamentos das populações pré-históricas e informações ambientais em que está inserido cada sítio; b) utilização de informações cartográficas e de sensores remotos com a finalidade de avaliar preliminarmente os recursos ecológicos e locais de maior probabilidade de ocorrência de evidências arqueológicas; c) informações geoambientais referentes à área de pesquisa, principalmente no que refere-se a solo, geomorfologia, hipsometria, geologia, vegetação e recursos hídricos; d) informações dos trabalhos de campo realizados; e) utilização de um Global Positioning System - GPS; f) utilização do Sistema de Informações Geográficas - SGI 340 - v. 2.5, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - Inpe, no qual foram gerados planos de informação geoambientais (hipsométrico, solo, relevo, recursos hídricos e rede viá­ria) e arqueológicos (localização e tipos de sítios) e, posteriormente, com a inter­seção desses planos geraram-se os mapas temáticos arqueológicos. 


        Resultados e Discussão 

Estudos realizados por Peixoto (1995), a partir da implantação dos sítios no ambiente, da análise do material arqueológico e da documentação escrita, revelaram que a borda oeste do Pantanal (Maciço do Urucum) foi ocupada por populações indígenas ceramistas portadoras da Tradição¹ Tupi-Guarani e que esta população parece estar restrita a essa região. Por meio da análise do material cerâmico foi possível definir que a referida região era povoada por populações que tinham uma homogeneidade na produção de suas vasilhas cerâmicas, no que diz respeito a decoração e morfologia (Figura 16). O material cerâmico encontrado tem as mesmas características da subtradição² corrugada, do Sul do Brasil.

Embora não haja datações radiocarbônicas, é possível inferir que se trata de um grupo que se estabeleceu na região antes da chegada dos colonizadores eu­ropeus. Segundo Peixoto (1995), tal conclusão é possível devido aos relatos dos colonizadores do século 16 (Schmiedl, 1950 & Cabeza de Vaca, 1984) que relatam a presença de populações de língua tupi-guarani nas áreas de morrarias do Pan­tanal. Também, a análise do material cerâmico indica pertencerem a um período anterior à colonização das Américas e que se estabeleceram na região de modo estável (Peixoto, 1995).

1 Tradição: Grupo de elementos ou técnicas que se distribuem com persistência cultural (Chmyz, 1966).                                                      2 Subtradição: Variedade dentro de urna mesma tradição (Chmyz, 1966).

 

Figura 16. Reconstituição de vasilhame da Tradição Ceramista Tupi-Guarani pertencente aos sítios      localizados no Maciço do Urucum. 

Os sítios com petroglifos caracterizam-se por apresentarem desenhos realizados em baixo relevo, tendo como base um substrato rochoso (bancada laterítica) com formações de cactáceas e bromeliáceas) (Figuras 17 e 18). Trata-se de imensas gravuras compostas basicamente de círculos e sulcos curvos, produzidas por raspagem ou picoteamento ligadas entre si por longos sulcos sinuosos (Figura 19). Até o momento foram localizados cinco sítios denominados pela sigla MS-CP-Ol, MS-CP-02, MS-CP-03, MS-CP-04 e MS-CP-41. Girelli (1994) estudou quatro desses sítios (MS-CP-Ol, MS-CP-02, MS-CP-03, MS-CP-04) e, utilizando um enfoque tipológico, estabeleceu as semelhanças com sítios de outras áreas, por meio da simbologia e da lógica de composição semelhantes. A partir desse enfoque, a autora estabeleceu uma tipologia que serve para a totalidade dos sítios em termos de grafismos, produção e suporte físico, percebendo-se que os con­juntos estão organizados de duas formas, conforme descrito a seguir:

"... a primeira é de agrupamento de grafismos variados predominantemente justapostos, sem conexão física entre eles; algumas vezes se percebe que estes grafismos têm uma relação intencional, como por exemplo as pisadas agrupadas ou enfileiradas. A segunda forma de organização é de grafismos variados liga­dos por longos sulcos e acompanhados por outros." (Girelli, 1994, p. 150).

Nos quatro sítios os tipos e a composição dos conjuntos são semelhantes, diferindo apenas na variedade, qualidade e superfície coberta, indicando que formam um só grupo. Essas gravuras assemelham-se às existentes no Médio Tocantins, Alto Araguaia e no Estado de Roraima, sendo incorporadas ao Complexo Estilístico Simbolista Geométrico Horizontal, definido por Souza et al. (1977). Em relação aos produtores das gravuras, Girelli (1994, p. 152) coloca a seguinte hipótese:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 Figura 19. Cópia reduzida de parte dos petroglifos do sítio MS-CP-O3.              Fonte: Girelli (1994, p.89). 

"O fato de encontrarmos nos quatro sítios o mesmo tipo de suporte, a mesma técnica de produção, a mesma simbologia e a mesma lógica na composição dos painéis, nos leva a pensar que tenham sido produzidos por uma mesma cultura, que supomos seja a dos construtores dos aterros nas áreas alagadiças. Os grafismos usados, especialmente os longos sulcos sinuosos que estruturam grande parte dos sítios, estão mais próximos da representação desse ambiente do que da simbologia conhecida da cultura tupi-guarani que ocupa área limítrofe dos mesmos sítios." (grifo nosso).

Os sítios de Tradição Pantanal estão localizados nas áreas limítrofes da planície de inundação/morraria, planície flúvio-lacustre da Lagoa do Jacadigo, Lagoa Negra e dique fluvial do Rio Verde, e estão representados pela sigla M5-CP-16, MS-CP-17, MS-CP-18, MS-CP-20, MS-CP-21, MS-CP-22, MS-CP-23, MS-CP-24, MS-CP-25, MS-CP-27, MS-CP-28a, MS-CP-32, MS-CP-33, MS-CP-34, MS-CP-35, MS_CP-36, MS-CP-37, MS-CP-38, MS-CP-50, MS-CP-51, MS-CP-52 e MS-CP-53.

Os sítios de Tradição Pantanal estão localizados sobre capões-de-mato, cordilheiras e diques lacustres e fluviais da planície de inundação. Conforme nomenclatura arqueológica, esses sítios foram identificados como aterros, definido por Oliveira (1995, p. 27) como "um tipo de sítio arqueológico de interior, a céu aberto, que se apresenta na paisagem como uma elevação do terreno, total ou parcialmente antrópica, e que normalmente ocorre em áreas inundáveis". Os aterros têm uma elevação em relação à planície entre 1,20 m e 2,0 m, com formas circulares e subcirculares, tendo em média 60 m a 100 m de diâmetro. O material arqueológico ocorre tanto na superfície como nos estratos inferiores, sendo pos­sível coletar fragmentos de cerâmica, lítico, ossos de seres humanos e outros ani­mais. As camadas arqueológicas medem em torno de 0,5 m a 2 m de espessura, compondo-se de gastrópodes, principalmente Pomacea canaliculata e Pomacea scalaris, ossos de peixes, mamíferos, aves e répteis.

Estudos realizados por Rogge (1996) caracterizaram as culturas pré-coloniais dos sítios da planície de inundação, a partir de elementos tecnológicos e ecológicos. Segundo Rogge (1996), as populações pré-coloniais que habitaram a planície de inundação pertenceram a uma nova tradição, denominada de Tradição Pantanal, com dois períodos bastante distintos: os pré-ceramistas, com datas radiocarbônicas que variam entre 8.180 (:t 60 A.P.) a 2.750 (:t 50 A.P.), e os portado­res da tecnologia cerâmica que atingem datas de até 2.160 (:t 50 A. P.).

Os sítios históricos estão representados pela sigla MS-CP-39 e MS-CP-40, nos quais a cerâmica indígena está associada a louça, garrafas de vidro e grês. Os sítios estão localizados em área de planície (Dp), às margens da Lagoa do Mato Grande. Peixoto, 1998, analisando o material arqueológico coletado e integrando as informações contidas na documentação escrita sobre a fundação de Albuquerque - MS e da história da região, estabeleceu que os sítios MS-CP-39 e MS-CP-40 são antigos assentamentos pertencentes à Missão de Nossa Senhora do Bom Conselho, fundada pelo Frei Mariano de Bagnaia em 1949, sendo totalmente destruída durante a guerra do Paraguai.

Os sítios cerâmicos MS-CP-25, MS-CP-26, MS-CP-47 e MS-CP-49 não foram incorporados a nenhuma tradição, sendo necessário um estudo mais aprofundado sobre o material arqueológico coleta,do. No Apêndice 3, encontra-se o mapa de localização de sítios arqueológicos, onde observa-se a distribuição dos sítios arqueológicos de diferentes tradições na área de estudo.

O maciço residual do Urucum, conforme estudos realizados por esse zoneamento, caracteriza-se por apresentar córregos permanentes, várias classes de solos não-hidromórficos com boa qualidade para utilização agrícola, uma regularidade pluviométrica maior, com temperaturas mais amenas em relação à planície de inundação, e uma diversificada fauna e flora, que propicia uma área de caça e coleta permanente. Com condições ambientais favoráveis, essa região proporcionou a instalação de pequenas aldeias de populações indígenas de Tradição Ceramista Tupi-Guarani que cultivavam a terra e reproduziram na área seu típico padrão de assentamento e exploração de recursos, mantendo o domínio sobre o maciço residual do Urucum no período pré-colonial. Na Tabela 2 estão relacionados a sigla do sítio, o tipo de sítio, a cota, a distância dos recursos hídricos e as características ambientais da região entorno dos sítios arqueológicos da Tradição Tupi-Guarani, dados esses que foram obtidos dos mapas de solo, vegetação, geologia e geomorfologia, elaborados neste zoneamento e no de Peixoto, 1995.

                  Tabela 2. Informações sobre sigla, cota, distância dos.recursos hídricos, solo, vegetação, geologia, relevo e localização em coordenada UTM para cada sítio arqueológico tupi-guarani localizado no Maciço do Urucum, MS.

Sigla

Cota

R. Hídricos Dist. (m)

Solo

Vegetação

Geologia

Geomorfologia

Local UTM (m)

MS-CP-05

120

400

B

Capoeira

QPdl/mf

Dp

7883100

 

 

 

 

 

 

 

439400

MS-CP-06

120

10

B

Pasto

QPdl/mf

Dp

7883000

 

 

 

 

cultivado

 

 

438900

MS-CP-07

120

210

B

Capoeira

QPdl/mf

Dp

7882600

 

 

 

 

 

 

 

439500

MS-CP-08

160

20

BV

Pasto

QPdl/mf

D/Er2

7881500

 

 

 

 

cultivado

 

 

439600

MS-CP-8A

280

58

BV

Fs

QPdl/mf

D/Er2

7880200

 

 

 

 

 

 

 

439500

MS-CP-09

480

50

BV

Fs

QPdl/mf

D/Er2

7878300

 

 

 

 

 

 

 

441300

MS-CP-10

520

20

BV

Fs

QPdl/mf

D/Er2

7878350

 

 

 

 

 

 

 

440500

MS-CP-11

640

20

BV

Fs

QPdl/mf

D/Er1

7878200

 

 

 

 

 

 

 

439200

MS-CP-12

720

200

BV

Fs

QPdl/mf

D/Er2

7877200

 

 

 

 

 

 

 

437400

MS-CP-13

720

30

BV

Fs

QPdl/mf

D/Er1

7876600

 

 

 

 

 

 

 

437000

MS-CP-14

280

30

BV

Fs

QPdl/mf

D/Er2

7878800

 

 

 

 

 

 

 

445700

MS-CP-15

280

2520

Re

Fs

QPdl/mf

D/Er2

7881800

 

 

 

 

 

 

 

443900

MS-CP-28

240

40

BV

Fs

Qx

Dp

7876500

 

 

 

 

 

 

 

427600

MS-CP-29

140

200

BV

Fs

Pebo

Dp

78920004220

 

 

 

 

 

 

 

00

MS-CP-30

140

90

BV

Fs

Pebo

Dp

7892000

 

 

 

 

 

 

 

422000

MS-CP-31

140

130

BV

Fs

Pebo

Dp

7892400

 

 

 

 

 

 

 

422000

MS-CP-42

280

30

Re

Fs

QPdl/mf

D/Er1

7880600

 

 

 

 

 

 

 

435100

MS-CP-43

240

30

Re

Fs

QPdl/mf

D/Er1

7880900

 

 

 

 

 

 

 

434800

MS-CP-44

160

300

PEe

 

Fs

QPdl/mf

D/Er1

7875000

 

 

 

 

 

 

 

433000

MS-CP-45

120

20

PEe

Fs

QPdl/mf

D/Er1

7870900

 

 

 

 

 

 

 

433200

MS-CP-46

560

100

PEe

Fs

QPdl/mf

D/Er1

7871000

 

 

 

 

 

 

 

440000

MS-CP-48

160

40

Ce

Fs

QPdl/mf

Dc2

7867600

 

 

 

 

 

 

 

439900

Solo: B Brunizém; BV Brunizém Avermelhado; Re Solos Litólicos eutróficos; Pee Podzólio Vermelho-Escuro eutrófico; Ce Cambissolo eutrófico; Vegetação: Fs Floresta Estacional semideciduai. Geologia: QPdl/mf Depósitos Dentríticos; Qx Formação Xaraiés; Pe bo Formação Bocaina. Relevo: Dp Planície; D/Er2 Rampas com moderado grau de dissecação; D/Erl Ra1!'pas com fraco grau de dissecação; Dc2 colinas.

     Por meio das observações realizadas em campo e das informações geoambientais e arqueológicas foi possível identificar áreas potenciais para im­plantação de aldeias no Maciço do Urucum. Para tanto, foram considerados as principais unidades de relevo, o tipo de solo, a proximidade dos córregos e a altitude em que está inserido cada sítio. Nas encostas das morrarias foram classi­ficados quatro tipos de relevo, onde localizam-se os sítios arqueológicos: D IErl são rampas com fraco grau de dissecação, com declividade entre 10% e 20% e 20% e 40%; D IEr2 são rampas de moderado grau de dissecação, com declividades entre 20% e 40%; Dc2 relevo dissecado do tipo colinoso, com declividade entre 10% e 20% e superior a 40% e altitude; Dp são planícies com declividade inferior a 2% e altitudes que variam de 90 a 150 m. Nos relevos D IErl, D IEr2 e Dp há um baixo potencial erosivo com declividades abaixo de 40%. Nesses locais há uma maior concentração de sítios, enquanto que nos relevos colinosos (Dc2) há uma diminuição significativa na ocorrência de sítios, conforme demonstra a Figura 20.

De acordo com o mapa de solos, há pelo menos treze tipos de solo no Maci­ço do Urucum. Entretanto, os locais em que estão inseridos os sítios compreen­dem, em sua maioria, solos bem drenados, medianamente profundos, de textura média ou argilosa, predominando o Brunizém Avermelhado (BV), Brunizém (B) e com fertilidade boa a regular, possuindo características físicas favoráveis ao desenvolvimento de plantas domesticadas, havendo uma maior preferência na instalação de tais grupos em áreas com a presença desses solos e em menor esca­la em solos de menor fertilidade tais como solos Litólicos eutróficos (Re) e Cambissolo eutrófico (Ce), conforme demonstra a Figura 21.

A área de domínio das populações ceramistas tupi-guaranis abrange todo o Maciço do Urucum, com a presença de sítios desde as cotas de 120 m até 720 m,

  

               

Figura 21.     Sítios arqueológicos tupi-guaranis com os tipos de solos. Brunizém (B); Brunizém Avermelhado (BV); Solos Litólicos eutróficos (Re); Podzólio Vermelho-Escuro eutrófico (PEe); Cambissolo eutrófico (Ce). havendo uma maior concentração de sítios nas cotas entre 120 m e 300 m (Figu­ra 22). Também nos parece que a facilidade de acesso aos córregos e vertentes é um fator preponderante na ocupação dessa região, na qual os sítios situam-se entre 20 e 400 m, sendo verificada a ocorrência de apenas um assentamento com uma distância de 2.500 m do córrego mais próximo (Figura 23).

A partir dos dados das Figuras 20, 21, 22 e 23, foram realizadas interseções dos planos de informações relativo ao relevo, solo, altimetria e sítio, resultando nas áreas potencialmente favoráveis a ocorrência de sítios de Tradição Tupi­Guarani. Numa segunda etapa foram delimitadas áreas favoráveis a ocorrência de sítios com petroglifos e de Tradição Pantanal: para os sítios com gravuras, delimitaram-se as áreas de bancadas lateríticas; para os sítios de Tradição Panta­nal, delimitaram-se as áreas onde há registro desses sítios, gerando o mapa de Potencial de Ocorrência de Sítios Arqueológicos (Figura 24). Posteriormente, fo­ram realizadas interseções dos planos de informação, citados anteriormente, com prioridade para a presença de sítios em solos e relevos .com porcentagem igual ou maior a 15% (vide Figuras 20 e 21), resultando nas áreas favoráveis a ocorrên­cia de sítios de Tradição Tupi-Guarani. Em uma segunda etapa foram delimita­das as áreas com presença de sítios com petroglifos e sítios de Tradição Pantanal, gerando o mapa de Alto Potencial de Ocorrência de Sítios Arqueológicos (Figu­ra 25).

Até o momento foram localizados 22 sítios de Tradição Tupi-Guarani, para os quais, considerando o conteúdo cultural, a adaptabilidade ambiental e a delimitação das áreas de ocorrência de sítios, sugerimos as seguintes hipóteses de ocupação de populações indígenas de Tradição Tupi-Guarani: a) cada bacia de vertente suportaria uma aldeia com um sítio central, o que não significa que to­das elas tenham sido ocupadas simultaneamente; b) poderiam coexistir com os sítios centrais pequenas casas que se deslocariam periodicamente, por exemplo, à medida que a roça era transferida para outro local; c) a contemporaneidade entre os sítios centrais seria apenas entre as aldeias de cada bacia de vertente; d) embora os assentamentos estejam restritos à região da morraria, há possibilidade do acesso aos recursos do Pantanal, pois o Maciço do Urucum faz limite com as áreas de inundação do Pantanal; f) a ocupação do Maciço do Urucum parece estar sob o domínio das populações indígenas de Tradição Tupi-Guarani que mantiveram a sua identidade cultural frente a outros grupos indígenas que ocupavam a planície de inundação em torno do Maciço do Urucum.

Figura 24 - Mapa de potencial de ocorrência de sítios arqueológicos

Os sítios com petroglifos estão localizados ao redor das morrarias, sobre bancadas lateríticas, em áreas de planície (Dp), cujas altitudes variam de 90 m a 150 m e declividade de até 20% (Figuras 20 e 21). Os grafismos são composições de difícil compreensão, pois não conhecemos os significados dos símbolos representados. Esses grafismos caracterizam-se por apresentarem uma identidade própria e terem sido produzidos por uma mesma cultura, provavelmente por populações indígenas que ocuparam os aterros na planície de inundação, pois não há registro de que populações de Tradição Ceramista Tupi-Guarani realiza­ram esse tipo de grafismo.       

Figura 25 - Mapa de alto potencial de ocorrência de sítios arqueológicos                         

 Os sítios de Tradição Pantanal estão localizados nas áreas limítrofes da planície de inundação/morraria e diques lacustres das lagoas (Figuras 24 e 25), embora existam registros da presença de sítios dessa tradição na planície de inunda­ção. Entretanto, neste zoneamento, foram consideradas como área de estudo os diques lacustres das lagoas, áreas limítrofes da planície de inundação e o planal­to residual do Urucum.


 Conclusões e Recomendações 

Os estudos realizados neste zoneamento demonstram que o maciço residu­al do Urucum apresenta uma diversidade de solo, geologia, vegetação, relevo, altimetria, fauna e recursos hídricos. Demonstram também que há uma diversidade de sítios arqueológicos, tais como: sítios de Tradição Tupi-Guarani, sítios com petroglifos e sítios de Tradição Pantanal.  .

No Maciço do Urucum foram localizados 22 sítios de populações ceramistas de Tradição Tupi-Guarani, que parece ter dominado todo o Maciço do Urucum e que as evidências arqueológicas e etno-históricas indicam a presença na região a partir de 800 d.e.

Os sítios com petroglifos estão localizados sobre um substrato rochoso de­nominado de bancadas lateríticas, podendo ser detectadas em fotos áreas e ima­gens de satélites. Até o momento, foram identificados cinco sítios petroglifos com predomínio de figuras com motivos geométricos, não sendo possível atribuir a realização desses grafismos a uma determinada população indígena, bem como não foi possível determinar a idade dessas inscrições.

As áreas de diques lacustres e áreas limítrofes entre a planície de inunda­ção e o planalto residual do Urucum apresentam uma densidade elevada de sítios da Tradição Pantanal.                                                               .

As pesquisas realizadas até o momento permitem afirmar que as populações, pré-históricas do Pantanal Sul-Mato-Grossense têm no manejo do ambiente um importante aliado para sua própria sobrevivência. Parece certo que há duas formas distintas na ocupação desse território: uma, no planalto residual do Urucum, ocupada por populações indígenas portadoras da Tradição Ceramista Tupi-Guarani, e outra, na planície de inundação, que tem, no capão-de-mata, diques fluviais e lacustres importantes áreas para a fixação de assentamentos de populações indígenas pré-ceramistas e de populações portadoras de tecnologia na produção de vasilhame cerâmico denominada de Tradição Pantanal.

Como produto final, foram elaborados um mapa com a localização e a determinação dos respectivos tipos de sítios arqueológicos na escala de 1:100000 (Apêndice 3) e dois mapas temáticos delimitando as áreas potencialmente favoráveis à ocorrência de sítios (Figuras 24 e 25). 


Referências Bibliográficas

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CHMYZ, I. Terminologia arqueológica brasileira para a cerâmica. Curitiba: Centro de Ensino e Pesquisas Arqueológicas, 1966. 34 p. (Manuais de Arqueologia 1, Parte. 1).

 GIRELLI, M. Lajedos com gravuras na região de Corumbá, MS. São Leopoldo: UNISINOS, 1994.   Dissertação Mestrado.

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PEIXOTO, J. L. S. A ocupação tupi-guarani na borda oeste do Pantanal SuI-Mato-Grossense. Porto              Alegre: PUC/RS, 1995.125 p. Dissertação Mestrado.

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